O retorno da diplomacia dos pés descalços
Rita Matos Coitinho*
É interessante o uso que fazem certos intelectuais do termo “ideologia”. No fundo é um raciocínio bastante simplório: ideologia é aquilo que dizem aqueles que discordam de mim. Então para os liberais há as ideologias de direita (o fascismo) e de esquerda, sempre autoritárias. No meio estão eles, cheios de razão, paladinos da liberdade do mercado, da imprensa etc. etc. etc. Deve ser bastante confortável a vida intelectual dessas pessoas, rodeadas de certezas.
Mas infelizmente (ao menos para eles) a realidade é bastante mais complexa e, puxa vida, como é duro ter que dizer isso: o pensamento liberal é, do começo ao fim, ideologia. Por quê? Porque “ideologia” não são apenas valores (de esquerda ou de direita), mas noções que falseam a realidade ou, em outras palavras, explicam a realidade por uma ótica incompleta. Ideologia é tudo aquilo que dizemos da sociedade (ou de nós mesmos) a partir de impressões superficiais. No combate às “formas ideológicas” de representação da sociedade, o bom e velho Karl Marx propunha que a estudássemos de uma maneira radical: indo à raiz dos problemas. Foi assim que Marx desmistificou a teoria do valor da economia política liberal e demonstrou que o fundamento da sociedade capitalista encontra-se não apenas no “trabalho”, como já apontava David Ricardo (que foi muito longe, reconhecia Marx), mas na relação social que se estabelece entre trabalho e capital.


